Depoimentos

Para um membro do Instituto secular, como para todo leigo, o trabalho é um aspecto fundamental de sua vocação e é vivido como serviço. Este é o modo para realizar-se, para sentir-se útil, mas sobretudo para contribuir a construir a sociedade melhiorando-a. No fundo, o trabalho, unindo as pessoas no empenho cotidiano e desenvolvendo multiplas relações, é uma constante fonte de fraternidade.

COMO COMEÇOU “CIRANDA CIRANDINHA”

“Ciranda Cirandinha” è uma escola maternal (com crianças de 2 a 6 anos), nascida a Mucunã um povoado na periferia de Fortaleza no Estado do Ceará no Brasil. È uma realidade fortemente carente, com muitas famílias sem trabalho e que sofrem a verdadeira fome, agravada pela condicião de analfabetismo muito marcante nos adultos e por a conseguente pobreza cultural.

Tudo começou 20 anos atrás, em 2000. Uma jovem, não rica, mas instruida e com um nível de vida que podemos definir “normal”, percebeu que no povoado tinham três crianças (dois meninos e uma menina) de três a cinco anos particolarmente denutridas e doentes e as leva para a sua própria casa, cuida das feridas delas e dà comida para elas. Cada dia a jovem realiza este simples ritual de pequenos e simples gestos feitos de coração até que as feridas do corpo ficam curadas.

Na verdade as crianças que vivem com estes sofrimentos são muitas e,sem esperar que as autoridades, o governo ou outras associações tomem conta,decide de cuidar de umas dez crianças , levando-as para casa para alimenta-las, dar banho,e tratar dos seus ferimentos.

UMA EXPERIÊNCIA DE VIDA

Meu trabalho desenvolvido na escola maternal (sou diretora) sempre foi motivo de muito orgulho. E foi esse orgulho que me marcou na trajetória de minha caminhada e que realizo com uma grande serenidade e determinação.
Sempre tenho como princípio a doação de mim mesma como meio de transformação de vidas, em especial daquelas crianças e seus familiares com necessidades não somente financeira mas, carentes de atenção, de afeto, de amor, respeito e dignidade.
Procuramos em nossas atitudes, sempre ter um olhar diferenciado para cada um e para cada situação. Situação esta, na qual o verdadeiro sentido, consiste na doação intensa de um amor sem reservas e no total desprendimento do comodismo e assim vivenciar uma liberdade pura e verdadeira que só o amor de Deus nos oferece.

Meu trabalho não é sempre fácil, pois encontro dificuldades em vários sentidos, pois convivo cada dia no meio de tantas injustiças sociais, culturais… por parte daqueles que tem o poder em suas mãos e manipulam as pessoas mais vulneráveis… esquecendo-se que todos somos irmãos em Cristo.
Não quero esquecer de mencionar que encontrei tantas pessoas que me ajudaram para ser uma coluna sólida na busca do meu caminho de vida e de fé, como é o caso do Instituto Secular “Spigolatrice della Chiesa”.
Espero ter coragem e firmeza para responder ao amor de Deus em Jesus Cristo.

UM PEQUENO GESTO DE AMOR

Os meses de janeiro, fevereiro, março do ano de 2017, conheci a família do Sr. Francisco e D. Silvia que tem vários filhos, um casal simples, humilde, mas de um amor extraordinário com seus filhos. Entre seus filhos um deles é especial, Bruno, que tem limitações e dificuldades. Essa família teve um significado muito especial para prosseguir o meu trabalho com mais empenho, dedicação e amor.

A família vive com o sustento do pai, que não tem emprego certo, pois ele é pedreiro e o que ganha mal dá para alimentar toda a família. Já trabalhou como marceneiro, entregador de mercadorias, servente e ajudante. A mãe, Sílvia, desde os 14 anos trabalhava como doméstica nas casas de famílias para lavar e engomar roupas, cozinhar, arrumar, e coisas afins, e teve que deixar de trabalhar após o casamento para cuidar dos filhos. Uma família que apesar das dificuldades sempre percebi o cuidado, a atenção e a união entre todos eles.

Os pais de Bruno são muito cuidadosos com os filhos, sempre mandando-os para a escola, sempre limpos e apesar de todas as dificuldades nunca deram os filhos para outras famílias criarem e cuidarem. O caso mais preocupante é a do filho Bruno, pois além de especial, hoje em dia ele está quase cego.

Ao nascer Bruno não chorava, não mamava, nasceu roxo, dormia muito e ficou na incubadora durante 1 mês. Custou a andar, só o fez com 2 anos e 7 meses, tropeçava muito, não falava direito. Segundo a mãe, o mesmo foi mordido por um escorpião, onde a perna inchou, teve febre e de acordo com um médico, o cérebro foi afetado. Ao brincar com seus irmãos, Bruno era impaciente, empurrava, derrubava os brinquedos… Aos seis anos foi diagnosticado como uma criança especial e toma remédio controlado. Não pode ir à escola, pois na época as escolas não o recebiam, e os pais nem tinham dinheiro para levá-lo a uma escola apropriada. Bruno foi crescendo sem nenhum tratamento apropriado. Aos 10 anos fez a sua Primeira Eucaristia e nas suas limitações, gostava de ver televisão e gostava de desenhar. Infelizmente aos 12 anos, começou a ficar cego, tem glaucoma, e necessita de transplante para salvar um dos olhos, pois o outro olho já está perdido.

E dentro deste meu trabalho me deparo com situações de vulnerabilidade das famílias, na falta de alimentos, higiene, etc, coisas simples, mais básicas para se ter uma vida digna e a família de Bruno é uma delas que significa muito no trabalho que realizo hoje. Juntamente com a generosidade de algumas pessoas seguimos com esta missão e sinto a presenças de Deus vivo nestas famílias mais esquecidas e injustiçadas pela nossa sociedade.

No intuito de cuidar das crianças da comunidade, é muito gratificante sabermos que no futuro elas irão crescer profissionalmente e humanamente fazendo que no nosso pequeno gesto de amor se sintam amadas por Deus.

                                                                                                                                                 Zilda Batista